quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Quarto do Desejo

Volto-me para onde
De onde nunca devia ter saído
Para o lugar que ainda me resta
O canto do meu desassossego
Onde repousa tranquila minha alma

Desnecessário seria trocar os lençóis
Se não reparasse-lhe as manchas
E incômodo do cheiro quente e ardido
Do suor, da paixão, da lágrima, do vazio
E do vômito de palavras malditas
Que se silenciaram
Palavras grávidas de grito

Não há a menor possibilidade
De arrancar da carne
O espinho sem urro de dor
Ou sem a resignação do sangue
Que escorre entre os dentes
Por morder até o hálito
Confessar-se solitariamente a Deus
É confessar-se a ninguém
E negar a visão do que se passou
Do outro lado da fechadura
Duras são, na verdade,
As palavras não ditas
E covardia é a porta que se bate na cara
Sem pedir licença
Com licença
Mas antes de adentrar meu quarto
Meu refúgio de inquietações
Preciso dizer algumas coisas
Que seja termo de retratação
Ou justificativas
Afinal, de que valem os julgamentos
Senão para nivelar-nos
Malditas são as palavras
Que nunca foram encarnadas
E o que não foi dito
Ainda me provoca náuseas
No entanto,
Limpo é o travesseiro
Onde desejo repousar a cabeça.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

vvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvvwwww

Lusco fusco
Orgasmo entre o dia e a noite
Podem as nuvens densas chorar
A madrugada inteira
O relâmpago, o trovão e o medo
O estrondo do naufrágio

Júlio Diniz 

Diário de um Agente de Trânsito: Farol Aceso

Estação de ônibus é uma loucura. A gente vê de tudo.

_ Ô meu irmãozinho, o farol do seu ônibus tá queimado.

Gosto de chamar meus colegas de trabalho, os motoristas de transporte coletivo, de irmão. Além de não cair na possibilidade de errar o nome, todo mundo é irmão mesmo, não é verdade?

O motorista desce do ônibus e:

_ O Frank, já to ligando para o eletricista providenciar a lâmpada.
_Obrigado, meu irmão! Um pouco constrangido pelo fato de ele saber meu nome e o dele me esqueci.


Duas horas depois:

_ Ô Frank, já troquei a lâmpada queimada. Você quer ir lá fiscalizar?
_ De modo algum, meu irmão! Eu confio no seu trabalho.

O motorista, o irmão de quem não guardei o nome, foi dando as costas e se dirigindo para a próxima viagem:

_ São nas pequenas coisas, né, Frank, nas pequenas coisas!

_ Boa tarde E obrigado! O seu trabalho é importante!.


Frank D'Poe

Diário de um Agente de Trânsito: FDP

As veias da cidade começaram a pulsar mais forte.
Era a hora do rush. E o sol ainda rachando.
Eu em pé, ali na esquina
Av. D. Pedro I com Rua Sãozinha Baggio
Na conversão do 2402, São Bernardo-Glória
Exatamente ali um veículo estacionado
R6C- Proibido Parar e Estacionar
Desce o cidadão de dentro do automóvel
O dedo em riste na minha cara:

_ Você é um Filho da Puta!

Dou um passo atrás.
_ Boa tarde, meu senhor!
Por que estás a tratar-me desse jeito
Se ainda nem fiz a multa do veículo
E o senhor me trata dessa forma?

O senhor se volta em silêncio
Entra no veículo e fica ali por algum tempo
Desce novamente do carro
Vem em minha direção

_ Você me perdoa? Estou chateado,venho do hospital, minha mãe está doente...
_ Compreendo a sua situação, meu senhor. O seu veículo só não pode estar estacionado ali pelo fato de um coletivo carecer daquela área para fazer uma conversão com tranquilidade e segurança. Havendo um estorvo naquela área reservada para o raio de giro de um veículo de transporte daquele porte, embarcando, 1, 20, 40, 80, 120 pessoas... o motorista tem que parar para uma nova manobra. A parte traseira fica na faixa de rolamento de uma avenida. Vem outro ônibus atrás, um automóvel, um motociclista, um ciclista. Podemos causar um acidente e o seu problema se soma a outros problemas ainda maiores. Vamos fazer o seguinte, o senhor retira o veiculo, por favor, não farei a autuação e evitamos assim um problema ainda maior. Obrigado, tenha uma excelente tarde. Deus abençoe sua mãe.

F.D.P

Frank D' Poe, agente de trânsito

sábado, 15 de março de 2014

Brasil, o país da bunda e do futebol, sem colhões, peito e coração

Quando morei na Colômbia, a primeira pergunta que todo colombiano me fazia era se eu conhecia o Pelé e se via mulher pelada na rua.

A solução óbvia que tanto aspiramos para nossa nação não virá de um líder ou partido. Se assim o fosse, já o teria acontecido.
Creio, alimento esta esperança, e dela não abro mão, que o processo de transformação social que se faz necessária e que já vem acontecendo se tornará palpável a partir do momento em que CADA indivíduo se apropriar da importância de sua posição estratégica como agente de transformação, seja como cidadão, pai, mãe, filho e trabalhador qualquer que seja seu trabalho, na medida em que mantivermos abertura uns aos outros como servos uns dos outros. Consequentemente, o Estado será desobrigado de usar instrumentos de opressão do povo brasileiro e quem está no topo há de descer. 
Acaso, um dia não haveremos todos nós de passar pelo vale sombrio da morte?

Se todo o corpo fosse bunda, onde estaria o coração?
Eis aí a Greve dos Garis, a que chamo de Revolução dos Lixeiros, como amostra da importância de todo cidadão no processo de formação e construção de uma nação. Ninguém é invisível. E o povo ainda é o grande patrimônio do Brasil.

Se nossa presidenta tivesse peito, na primeira oportunidade teria, não recusado a Copa do Mundo, mas assumido uma postura responsável da mãe que amamenta seus filhos, afirmando que o país tem prioridades. O futebol é um espetáculo lindo e poderia ser um instrumento de pacificação social, entretenimento saudável e não esse mascaramento e fuga dos reais problemas que enfrentamos. Onde está verba para a construção de hospitais, escolas e um transporte decente e humano.
Que Deus me livre de uma mãe assim.

Júlio Diniz

sábado, 1 de fevereiro de 2014

SE PERGUNTAM POR MIM



Se perguntam por mim
Diga-lhes que saí a cobrar a velha dívida
Que não pude esperar dar na vida
O desejo de bater na minha porta

Diga-lhes que saí definitivamente
A dar a cara sem pinturas e sem trajes no corpo
Se perguntam por mim
Diga-lhes que apaguei o fogo
Deixei limpa a panela e desnuda a cama
Cansei-me de esperar a esperança e fui buscá-la

Diga-lhes que não me chamem
Tirei o disco que entretinha em boleros
O beijo e o abraço
O cálice arremessei contra o espelho
Porque necessitava converter o vinho em sangue
Já que jamais se deu o milagre de converter-se a água em vinho
Se perguntam por mim
Diga-lhes que saí a cobrar a velha dívida
Que tinham comigo o amor, o fogo, o pão, o lençol e o vinho
Que passei a chave na porta
E não regresso
Definitivamente diga-lhes que mudei de casa.


Júlio Diniz


terça-feira, 27 de agosto de 2013

Silêncio















Vou ficar em silêncio
Já é desnecessário gastar minha voz
Melhor cantar como o passarinho
Que mora numa gaiola
E que me acorda todos os dias
Da janela do terceiro andar
A mesma janela
Que dá de frente pra um cemitério
Mas eu vejo a grama verde
Quando vêm as chuvas de verão
E vejo a mesma grama verde
Numa fotografia em sépia
Quando finda a estiagem do inverno
Melhor ficar calado
Poupar as cordas vocálicas
Pra soltar um único grito
A que se tem direito nessa vida
Berrar na beira do abismo
Sombrio e solitário
Acordar os morcegos
Como os sonhos interrompidos na queda
Ouvir um eco
Vou ficar em silêncio
Pra ouvir o barulho da chuva
Vou sangrar a lágrima
Vomitar confissões
Ejacular no papel
Palavras deliciosas
Com tinta feita de suor, sangue e saliva
Já que a vida
É de dar água na boca
Vou ficar em silêncio
Não vou dizer mais nada
Vou falar com os olhos
Despeço-me do mundo
Acenando a Deus da última esquina
Onde o vento se dobra
E se esconde na derradeira encruzilhada
Dizendo adeus com o olhar de nostalgia
Abrindo os braços para o tempo
E gritando:
_Amor!Minha resposta mais clara
Minha verdade mais óbvia
Essa lágrima mais doce
Esse orgasmo tão curto
Desse sorriso que dói
Essa cara que se contorce
Esses olhos que mordem
Esses lábios famintos
O parto que rasga
Essa partida de que não se esquece
Esse pai que não diz
Mas esse filho que ouve:
"_Vou ali, meu filho, comprar cigarros"
Essa promessa que cospe
Na cara da obrigação
Sussurrando:
_AMOR!
Esse gari que segue sorrindo
Na traseira de um caminhão
E recolhe a merda do mundo
Pra adubar a vida
Essa flor que seca.


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

4:20 da Madrugada

O tempo pra mim é bobagem
Prefiro a intensidade
Mais me vale essa força
Que me força a registrar 
Em cada hora um poema
Os versos no minuto
Uma palavra por segundo
Que me faz ser um relógio na praça

Profeta louco que grita no futuro
A voz embaçada  do passado
Que a vida é toda passageira
E que é só um filme
Os meus olhos me fazem
Cinematografar cada suspiro de lembrança,
Cada gesto, cada olhar, cada silêncio
Cada intervalo, cada onda, cada vento
Toda lágrima e todo sorriso.


Javier Cardona

No Stress

Stress
Pare por cinco minutos
Fixe seus olhos
Nos olhos de um cão

Stress é falta de tesão pela vida
Falta de atenção
É o equívoco de não fechar os olhos
E parar o tempo por um momento
Num lapso de meditação
Um laço do insight
Fechar os olhos pra sentir o vento
A brisa fresca, os pés descalços
Na grama fresca
Stress é o erro de não abrir os olhos
E olhar nos olhos
É não parar por cinco minutos que seja
E fitar os olhos nos olhos de um cão
Você pode ficar hipnotizado de tanta ternura
Stress é não saber ouvir música
Não saber ouvir
Não saber falar
Não saber viver
Por não saber pensar
Pra não querer doer
Querer fingir pra poder fugir
Passar o carro na frente do boi
Passar o carro em cima do cão
Passar de pressa e fazer pouco caso
Passar o dia sem dar "Bom Dia"!
Passar a tarde sem ter visto o ocaso
Passar a noite e não querer dormir
Querer dormir e não fazer amor
Fazer o amor por obrigação
Stress é isso
Viver a vida sem ter tesão.

J.C.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Porque elas escolhem tanto a roupa


Deixou cair a toalha
Foi até o guarda-roupa
Escolheu a primeira, vestiu
Voltou e eu disse: Linda!
Deu as costas e se despiu
Escolheu a segunda, se irritou
Voltou e eu disse: Continua Linda!
Bateu a porta na minha cara
E se desnudou
Olhei pela fechadura
Ela pegou do chão a toalha
Correu até à porta, abriu
Deu-me um tapa na cara
Eu disse: Gostosa!
A toalha novamente caiu


terça-feira, 30 de julho de 2013

Manga

Um olhar pueril e perdido 

Num sabor tão simples
Que não carece palavras
Que dispensa entendimento
Num saber tão sereno
Do desejo intenso
De meramente viver
Sem pressa desgovernada
Desfrutar a vida a passo calmo

Em câmera lenta



Inspire-se AQUI nesse belíssimo vídeo de Robert Miguel

domingo, 28 de julho de 2013

Drama de um Escritor

MALDITO ROMANCE:
O Umbigo de Adão - Uma Cicatriz de Dor e Prazer da Existência
Se escrevo, não vivo!
Se vivo, quero escrever o vivido.
Porque quero narrar para os filhos que não tive
E os netos que não virão 
Que a vida é simplesmente maravilhosa
Entre os dramas e as sacanagens 
As gargalhadas pelas gafes do destino
Contar
Que do ódio nasce o amor
Que  do pecado  nasce o perdão
Que para saber-se filho
Tem que ser pródigo
Que para se encontrar
Tem que se perder
Que para encontrar coragem
É preciso sentir medo

Medo de ter medo da morte

sábado, 27 de julho de 2013

Deus existe?


E então, Deus existe, Javier Cardona?

_ Fazer essa pergunta, meu caro, é o mesmo que você amar uma mulher a noite inteira, entre o incenso que queima, o suor que escorre, a penumbra da lua tímida, a música que some no ar, o torpor do vinho do jantar, as angústias dos gemidos de prazer, as massagens, o cheiro da pele, o calor da química entre beijos e amassos, o revirar dos olhos e dos lençóis, o orgasmo como se fosse certeza de uma morte serena... 


e ainda perguntar:

_ Meu amor, foi bom pra você?

Perguntinha essa!

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Deus Me Proteja de Mim



Quando era menino, cresci sob a sombra de alguns homens que, na minha ingenuidade, julgava ser bons líderes, homens de coração bom e de conduta insuspeitável.

Hoje, depois de homem feito, me cai as escamas dos olhos e vejo a canalhice e bandidagem que se camuflam num discurso até bonito, muito bem arranjadinho em toda boa intenção e que, no entanto, não condiz em nada com a proposta da palavra mal-dita. " Façam o que eu falo, mas não façam o que eu faço"

Não fosse minha responsabilidade de assumir minhas posturas no mundo e minha escolha de não barganhar minhas convicções a troco de nada, eu poderia culpá-los por tamanha decepção minha ao descobrir que não passam de homens frouxos, covardes que nada garantem senão aquilo que lhes é conveniente, ou mesmo poderia fazer-me um igual. Todavia, a vida é um a caminho de árduo aprendizado em que, já que a atitude do outro pode ferir-me e amputar sonhos, não devo tornar-me um igual nivelando-me por baixo. Eu seria tão canalha quanto eles e duas vezes bandido por ter sofrido o mal e reproduzi-lo em outras pessoas.


Quem não quer o mal pra si, não o deseja a outrem.

Deus me guarde de mim!

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Redescobertas


Descobri que por muitos anos eu mesmo carregava um orgulho e preconceito irracionais contra meu trabalho. Obviamente que não foi uma postura gratuita, senão patrocinada pela minha covardia em ceder ao preconceito social fomentado por versões equivocadas e maldosas de vários segmentos irresponsáveis da mídia e pela própria falta de consciência de uma parcela da população que não sabe ainda se adequar ao inevitável princípio da coletividade. Em minhas incursões na direção de minha própria interioridade, essa jornada árdua tecnicamente definida como depressão, redescobri meu lugar no mundo e meu papel como agente transformador e responsável pela minha existência no mundo. Não bastava lamentar as injustiças, as calúnias, a falta de respeito e muito menos fazer ouvido de mercador. Algo estava errado com o mundo, mas algo estava errado comigo mesmo. Aos poucos fui percebendo que estava barganhando com o mundo minhas convicções e minha consciência. Chega o momento do insight e da transgressão do escravo que não sabe que sabe que é livre e que seu senhorio que não sabe que sabe que não é senhor coisa nenhuma. Foi necessário sentar-me diante da própria morte e dela absorver algumas lições importantes e imprescindíveis para a vida. Talvez, a principal delas é que não somos nada senão um sopro, um grão mínimo na ampulheta do tempo que irremediavelmente escorre pelo vidro transparente da vida até passar pela garganta afunilada da morte e despenca imóvel sobre outros grãos que por ali também passaram, aconchegados num cemitério de cinzas e nada mais. Chega o momento em que damos um basta a tudo e se há uma centelha de luz, de consciência tranquila e ética pode haver também um pouco de esperança de que um fogo queime a palha seca da inércia, elevando-nos na postura de guerreiros que lutam em favor do próprio bem e do bem alheio. 
Hoje não me importa mais o que eu seja na vida como forma de apropriação da necessidade de auto-afirmação no mundo. Importa ser qualquer coisa, pois importa essencialmente a postura do Ser que prescinde de qualquer forma de posse temporal como projeção, seja de status, poder, prestígio social. Qualquer homem que vive uma vida plena e consciente de que todo o seu tempo disponível é precioso, que não se permite negociar com as configurações impostas por quaisquer convenções sociais, tem consciência do poder de sua influência no mundo, seja um Juiz ou seja um Gari. Se nós soubermos que verdadeiramente podemos ser servos uns dos outros, nossa vida laboral se tornará mais amena. 
Toda nossa relação com quaisquer instituições ou quaisquer sistemas é sempre extremamente precária, pois depende, sobretudo, da postura que assumimos perante os desafios da vida  como ela se nos apresenta, seja qual forma for. No final das contas, a responsabilidade é sempre nossa, individual, em assumir uma postura de pedinte, mercenário ou guerreiro. 
Memento Mori: "Lembre-se, um dia você vai morrer".

Rótulos

Não gosto de homossexual
Não suporto negro
Detesto cristão, judeu e muçulmano
Não tolero pobre, rico e classe média
Não faço média com fachada 
Não tenho preferência por zona sul
Muito menos zona norte
Meu norte é outro
Nem centro e periferia
Favela e condomínio
Meu lugar também é outro
Não tenho paciência com PDF
Olhos azuis, castanhos e cego
Minha visão é outra
Rejeito gordo, magro
Modelo, patrão e empregado
Padrões e domínios
Não tenho clemência com santo
Não me satisfazem títulos
Nem plebe e nobreza
Tampouco o título desse poema
Que demasiado humano sou

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Melancolia

"Cada vez que um ser humano morre,
 um mundo humano desaparece.”

 Humberto Maturana
Se ando triste, desolado e perdido,
Por que pensares que são as dores minhas?
Que sejam angústias inventadas
Moinhos metamorfoseados em gigantes 
Contra os quais luto em vão?
Por que não suspeitas de que sejam as dores do mundo?
e as tuas próprias...
Que estas me sejam talvez miragem
Para que meus olhos exercitem compaixão
Por que duvidar desse tanto amor
Que existe nas esquinas da vida,
No chamado acaso ou insistência do destino,
Na assistência divina ou conspiração do universo?
Por que duvidar de que esse tanto amor
Não seria capaz de até mesmo criar um mal,
Um sofrimento e um ódio,
Para que crie também o abraço, o beijo e o sorriso?
Para renascer sempre da semente frágil
Que para não morrer só
Morre esse pequeno grão, esse ego
Para dar a outrem seu fruto

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Fumódromo

Há lugares que não são o que parecem ser. Um fumódromo, por exemplo.  
Segundo o Artigo 49º da Lei 12.546 é proibido o uso de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos ou qualquer outro produto fumígeno, derivado ou não do tabaco, em recinto coletivo fechado, privado ou público. Sem querer entrar no mérito legal para a autorização ou não da instalação desse espaço isolado com arejamento conveniente para os inveterados fumantes, insisto na minha mania de erguer lugares como esse como um símbolo da possibilidade da tolerância sem que ela se confunda com os princípios da liberdade individual em razão da própria contradição que ele, o fumódromo, representa: um lugar fechado para fumantes dentro de um lugar fechado onde não se pode fumar. Fica patente essa possibilidade de co-habitarmos em plena harmonia, sem que se fira direitos individuais.

Entrei no dito recinto no Lord Pub. Ingênua e descontraidamente puxei papo com três camaradas. A breve prosa deixou nítida a minha postura política: sou anarquista, graças a Deus! A contestação por parte de um deles afirmando que anarquia é bagunça, desordem não me afetou em nada. É preciso advertir a quem entra num fumódromo que se trata de um lugar que pode ser considerado o crisol dos testes de tolerância. Diante da discórdia do convicto rapaz evoquei ao espírito etimológico do termo para dizer que, do grego, Anarquia significa...

Fui interrompido pelo amigo exasperado do amigo:

_ Eu sou formado em Direito! Você sabe latim? Perguntou-me olhando com deboche os outros dois amigos. Continuou: _ Quanto à sua intolerância é assim que se faz:  Levantou-se da poltrona, caminhou até à porta corrediça de vidro, abriu, saiu seguido pelo amigo que discordou do meu espírito desordeiro, digo, anarquista e fechou novamente a porta. Fez isso com tanta segurança como  se fosse uma atitude pedagógica.

Juro que minha intolerância foi ter ficado perplexo com a grandeza de uma postura nada dialética de alguém que se diz formado em Direito. Ademais, eu estava era falando grego.

Restou-me ouvir apenas o pedido de desculpas do terceiro amigo que também saiu em seguida. É nessa hora que a gente tem que discernir que fumar, em certas situações, é um mecanismo de defesa tão primitivo quanto aquele famoso dispositivo do Gambá. "Não se aproxime, vai feder". 



Eu só queria uma foto dentro do fumódromo para ilustrar esta postagem.
O fotógrafo Amador Javier Cardona se compadeceu de mim.

Horas depois topei com uma moçoila linda que carregava no pescoço uma câmera fotográfica quando entrava novamente no fumódromo enquanto ela saía. Aparentemente ingênuo como sempre, perguntei:

_ Você é fotógrafa?
_Não. É um colar. Desferiu-me o golpe que desfigurou-lhe o próprio rostinho lindo.
Como  sou um homem feio, insisti com a mocinha com uma nota de cem reais, contratando seus serviços para tirar-me uma fotografia profissa para ilustração desta postagem.

Na minha cabeça de menino comecei a viajar naquela câmera, acreditando que o flash a ela   acoplado era um baita diamante que reluzia de vez em quando. E, juro por todos os santos, que não foi efeito das duas doses de Germana, duas doses do Blowjob ( drink que todo homem deveria pagar a uma mulher), duas Ice Smirnoff e uma Budweiser, nessa ordem. Eu ainda poderia soletrar o alfabeto grego de trás pra frente.

Eu já estava era ficando enauseado com a necessidade de ter que usar uma linguagem cada vez mais específica  e precisa para interagir com certas pessoas sem ser acusado de ser desordeiro ou ter segundas intenções. Por exemplo, eu sou fã de fotografia. No entanto jamais afirmaria que sou fotógrafo, pois não sou profissional. Já imaginou o quão pedante seria eu andar por aí como se fosse um dicionário ambulante, adjetivando todos os substantivos?

"_ Sou anarquista. Mas atenção, galera, refiro-me ao verbete Nº 4 do Aurélio Buarque de Holanda, ok?"

"_ Você é fotógrafa? Mas eu to perguntando se é profissional e não se tem a fotografia como hobby, ok?"


É foda, né? Polissemia ou é pra quem tem tempo demais ou pra quem carece de ilustração de uma linguagem cujo contexto não foi  percebido. "Quer que eu desenhe?"

Concluo com o que já afirmei no início desse intolerante desabafo porque ninguém é de ferro e até a paciência tem limite. Há lugares que não são o que parecem. Um fumódromo pode ser bem mais fedorento do que se imagina. A feiura e o mau-cheiro podem residir em espaços bem mais sutis, já que a prepotência humana parece não ter limites. Logo eu que, até aos meus trinta anos de idade,  já fui tão intolerante à fumaça de cigarro.

Como dizia meu professor da cadeira de Fundamentos de Direito, recorramos ao Pai dos Burros:

Anarquia:

A palavra anarquia vem do grego ἀναρχία, anarchía (de ἄναρχος, Anarchos, ἀν prefixo an, que significa 'não' ou 'não', e substantivo ἀρχός, Archos, que significa "líder", "governante" ou "governo") e utilizado para descrever as situações em que há ausência de Estado ou do poder público tornando-se inaplicável monopólio da força sobre um território.
Sistema político e social segundo o qual o indivíduo deve ser emancipado de qualquer tutela governamental.


        Seu 05, o Sr. vai dormir?
        Eu vou retomar o raciocínio. O conceito de Anarquia, do grego, αναρχία; 
       do  inglês,  anarchy; do alemão, anarchie; do javanês, anarki; 
       do latim, licentia...













É óbvio que, no contexto político, o termo Anarquia tem caráter polissêmico e será tomado como desordem, caos, bagunça, pois há ainda aqueles que têm sede de poder, que acham que podem legislar e controlar a vida dos outros. Se eu fosse um desordeiro, se eu fosse criança carente de lei que me dirija os passos, teria acendido meu cigarro no salão principal do pub.

Haverá um dia e já está chegando a hora que cigarro para mim não passará de um símbolo dessa existência efêmera e precária de nós, seres humanos. Um dia retornaremos de onde viemos, ao pó.


P.S. Lord Pub continua sendo uma das melhores casas pra se frequentar na minha opinião. Boa música, seguranças gentis e educados, garçons, como o Pedro Martinez, altamente atenciosos, as atendentes refinadas. E, nas vezes que lá fui, conheci muita gente bonita, elegante,  de papo agradável e inteligente.

Esses Loucos

João, meu mano. Um louco e eu, louco por ele.

Esses
Que tiram a roupa em praça pública
Como se vestissem a alma
Que, de tão comprometidos com a vida,
São tidos por alienados
Esses transgressores por amarem demais
Esses
De olhos arregalados por enxergarem tanto
Por engolirem as almas com a palma da mão
Já que não podem transformar pedra em pão

E matar a fome do mundo
São pedras que clamam no caminho
Profetas que gritam no deserto
Que conversam sozinhos
Como se falassem com todos os homens
Esses
Que não se importam por se importarem demais
Que odeiam quando na verdade estão amando
Que se silenciam quando estão falando
E quando falam, já não querem ser ouvidos
Estão meramente vivendo, distraídos
Os versos encarnados

Esses vermes que se alimentam 
Da traição crua e da crueldade das mentiras
Esses mesmos vermes
São as mesmas vespas, mariposas
Marimbondos, borboletas e abelhas
Esses livres.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Por que eu fiz isso?





"La confesión alivia el alma, pero daña la reputación"



Não, eu não sou corajoso. Eu tive mesmo é crise de consciência de que minha presença no mundo o influencia, ou pela minha indiferença ou pela minha participação. Será verdade mesmo quando afirmamos que NINGUÉM É UMA ILHA?

Eu bem que poderia escolher o caminho mais fácil para não expor-me tanto. Eu bem poderia dizer que estou arrumando as malas, que estou indo embora, saindo à francesa.Eu bem que, para proteger-me da hostilidade do mundo, poderia proteger a mim mesmo em minha integridade física e moral e escapar-me do ridículo escondendo-me em minha toca.

Eu bem que poderia apresentar uma série de justificativas para sair do meu Aqui e abandonar tudo e cair na doce ilusão de que posso construir uma felicidade além. A verdade é que seria um caminho fácil demais. Atestaria, além da minha covardia, meu egoísmo, minha prepotência e até mesmo meu preconceito do mundo e de ser humano. Nesse caso, eu viveria melhor numa matilha de lobos.

Não. Eu não sou corajoso. Eu tive é crise de consciência de que sou co-responsável por tudo o acontece no meu entorno. Sou responsável pelo meu silêncio e minha auto-sabotagem perante a resposta que mundo exige de mim.

Se existe uma corrupção na dimensão macro é porque ela existe também na dimensão micro, na realidade do cotidiano. É o olhar debruçado sobre as pequenas coisas e pequenos atos no entorno de minha existência que desencadeia um processo que se avoluma, profetizando mudanças necessárias. A matéria densa e palpável é feita de micro-partículas. As águas do oceano imenso são formadas pela aglutinação de moléculas, assim como correntes são feitas de elos. Isso é inescapável.

Eu bem que poderia acusar o sistema: _ "Ahhh, a culpa é do sistema!"
Que sistema? Quem gerencia o sistema? Quem dele participa?

Tomei consciência de minha responsabilidade no dia em que percebi que meu próprio corpo é um sistema, talvez o melhor exemplo de sistema muito bem arranjado, instrumento poderoso de minha manifestação no mundo. Qualquer ação que lhe causar instabilidade e comprometer seu funcionamento harmônico é da responsabilidade daquele a quem foi concedida o papel de mordomo, ou seja, eu mesmo. Qualquer parte desse mesmo corpo é parte desse corpo. Qualquer órgão ou qualquer elemento carece de sua nobreza. Uma unha inflamada pode levá-lo à morte.

Portanto, se ser gari na sociedade é menos nobre do que qualquer outro papel na sociedade e se é uma profissão digna de preconceito social, proponho o seguinte: A Revolução dos "Lixeiros". Lixeiros entre aspas, pois detesto essa palavra. Lixeiro é o cesto onde se deposita o lixo. Prefiro o termo GARI, que me faz acreditar que é radical da palavra Garimpo. Vejam só! Um garimpeiro! Se todos na sociedade se recusarem a tal tarefa, poderemos perceber de forma mais clara que somos nós quem produzimos o lixo do mundo.

Não está na mudança de profissão a garantia de um caminho melhor. Eu bem que poderia sair pelas portas do fundo, chutar o balde, ganhar na loteria, ir embora pra longe, Arraial D'Ajuda ou Bora-Bora, quem sabe, e assim resolver minha vidinha idiotizada pela pressão de um mundo cheio de ilusões que impõe ao indivíduo uma configuração de desejos que não lhe são próprios. De que adianta fugir do mundo e levar consigo a inquietação que me atormenta?

Se fôssemos mais políticos, aqueles a quem chamamos de "políticos" não teriam espaço para a corrupção e abuso do poder. Não há boiadeiro que dê conta do estouro da boiada, quando o gado todo avança na mesma direção.

Já que não posso fazer grandes coisas, quero fazer pequenas coisas com grandeza.



Leia  AQUI  também.

Júlio Diniz

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Empate

Nessa guerra
Nessa minha luta no mundo
Com mundo e contra o mundo
A favor de mim
E a favor do que penso sobre o amor
E sobre algumas outras coisas
Acabamos sempre num empate
Pois o que o mundo julga ser loucura em mim
Em mim creio piamente ser a lucidez
Que dele me salva e me faz ser eu
Apenas diferente e nada mais
E assim nos distanciamos
O mundo lá atirando-me pedras

E eu cá atirando-lhe flores
O mundo lá rindo de mim
E eu cá chorando por ele

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Prelúdio


Venha, mulher
Que já fiz a reserva do dia,
Do lugar de seu aconchego
E do vinho para mais tarde
Venha, querida
Já fiz a faxina na casa
Borrifei sobre o tapete da sala
Um pouco de essência amadeirada
E o aparelho de DVD prestes a rolar
Aquele show que não vimos ao vivo
Troquei a roupa de cama
E poli os espelhos do quarto
Acendi o incenso de mirra
Já fiz a mise in place
E deixei a massa al dente
Para ganharmos tempo
Podemos apenas nos acotovelar
Na bancada da cozinha
A quatro mãos entre ervas finas e os cogumelos
E o molho bechamel e a porção de bacon
E o mel dos lábios e as cócegas
E as gargalhadas...
Enquanto tomamos Martini com pimenta
A biquinho, aquela que você gosta
Enquanto ouvimos na rádio
As músicas que nos vem
Como caixinhas de surpresa
Venha, não demore
E se atrasar por causa da escolha da roupa,
Dos brincos, do baton, do penteado ou do trânsito
Não se preocupe
Teremos a noite toda e mais um dia
Eu quero mesmo é teu cabelo selvagem
E sua maquiagem borrada
Venha
Você pode até antecipar-se à hora marcada
Já deixei tudo pronto
Já estou pronto desde sempre
Temos um amor por fiança
Temos um acordo de acordarmos até mais tarde
E dormirmos acordados
Venha, não se esqueça
Não passe tanto perfume
Quero mesmo é sentir aquele seu cheiro
Que impregna teus tecidos
Venha, querida
Quero pensar-lhe as feridas
As do cansaço, do mau acaso e da lida
Venha querida, amada
Amante, amiga
Mulher, menina
Temos a noite por criança
Venha, morena
Vamos brincar de viver
E esquecer nesses prazeres
A dor e o passado
Já que nem mais o futuro existe
Venha
Já que a vida é sempre perdida na morte
E temos senão a espera deste agora
Deixe meu olhar se perder no seu
E minhas mãos, na vastidão de tua pele,
Na massa voluptuosa de teus seios
E meus dedos se perderem por entre tuas carnes
Na viagem das tensões de teus músculos
Na massagem a dissolver-lhes os nódulos
E minha língua ficar muda
Meus urros, inefáveis
E meu corpo todo se perder em tua alma
Alma tua a alumiar o corpo meu
Pela eletricidade viva do teu
O corpo seu
Venha...
Que estou com fome



sábado, 1 de dezembro de 2012

O Grito do Silêncio


Minha liberdade mora
Às vezes presa
Nesse nó na garganta
Nessa minha recusa 
Em pronunciar uma palavra
Minha liberdade se esconde
Em plena luz do dia
Sem o menor pudor
Nesse olhar perdido
Nessa voz embargada
Nesse dizer que é nada
Minha liberdade
Às vezes se acovarda
Para não ferir o mundo
Para tratar a dor em silêncio
Para pensar as chagas
As minhas e as do mundo
Minha liberdade ás vezes se cala
Como se calam as terras de plantio
Cansadas, depois da última colheita,
Se alimentam dos restos do desperdício
E do apodrecer da cana quebrada
Que aguentam o arado que lhe rasga a pele
Que suportam a esperança aflita pela chuva
Minha liberdade às vezes se resigna
Como o touro forte, porém manso
Que faz girar a mó a malhar o trigo

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Não Me Bastasse

Não me bastassem isso e aquilo
Não me bastassem o peso de toda a alegria
E a leveza de toda dor das angústias
Não me bastasse a fugacidade de todos os meus orgasmos
Não me bastasse saciar a fome
Não me bastasse o cio das paixões
Não me bastasse o fio da navalha
Não me bastassem a liberdade das minhas perdas,
O despojamento, a renúncia de tudo e a resignação

Ainda me resta isso
Ainda me resta a teimosia do coração em bater
Ainda me resta a esperança tola que bate à porta
Ainda me resta a coragem de caminhar a segunda milha
Ainda me resta um fio de chama quente
Da torcida que ainda fumega
Ainda me resta um tanto da lembrança boa
Me sobram saudades
Minha sombra não se sacia de mim
Deseja partir em busca de um pouco mais de luz
Minha loucura se desnuda para vestir-me de lucidez
Meu corpo não se contenta comigo
O grito da minha alma não suporta meu silêncio
E minha solidão detesta minha companhia

Não me bastasse esse vazio
Ainda me resta isso
Me resta ainda uma dívida 
Um vício, um pecado
Me resta esse carma
Me resta a maior transgressão
Da maior virtude
Me resta a chance de amar
Me resta a escravidão do desejo de ser livre
E ser quem eu sou